Os Papiros que o Tempo (Quase) Esqueceu
Preciso confessar: quando li sobre esse estudo pela primeira vez, tive que reler para ter certeza de que havia entendido direito.
Cientistas queimaram papiros de propósito. Usaram materiais egípcios tradicionais, mandaram estudantes do ensino médio escreverem com canetas de junco, enrolaram os papiros e colocaram tudo num forno de alta temperatura até ficarem completamente carbonizados.
E o melhor: isso foi genial.
Por que Alguém Faria Isso?
Deixa eu pintar um cenário pra você. Você está em Herculano, na Itália, quase 2.000 anos atrás. O Monte Vesúvio está prestes a entrar em erupção numa das explosões vulcânicas mais catastróficas da história. Em poucas horas, uma cidade inteira fica enterrada sob cinzas vulcânicas. Mas o que a maioria das pessoas não sabe é que as cinzas não preservaram apenas prédios e corpos. Elas preservaram algo muito mais precioso: uma biblioteca inteira.
Estamos falando de cerca de 1.800 papiros que sobreviveram à catástrofe. Esses não são cópias de cópias como grande parte da literatura antiga. São obras originais, livros que saíram diretamente dos círculos intelectuais da antiguidade e ficaram congelados no tempo pela destruição vulcânica.
O problema? Eles estão completamente ilegíveis. Os papiros são tão frágeis que tentar desenrolá-los geralmente transforma tudo em pilhas de cinzas pretas e pó. Há séculos, pesquisadores lutam para ler sequer uma fração desses tesouros antigos.
O Momentão de Iluminação
Aí entram Douglas Seiler e sua equipe no Berkeley SETI. A ideia brilhante deles? O problema talvez não esteja no papiro em si — talvez esteja na tinta.
As tintas antigas não eram todas iguais. Algumas eram feitas de carbono (basicamente madeira queimada misturada com água), enquanto outras continham elementos metálicos como chumbo. É aqui que a coisa fica interessante para os pesquisadores: o chumbo absorve raios-X muito mais fortemente do que o papiro carbonizado.
Então a ideia deles era simples no conceito, mas revolucionária na prática: se conseguissem escanear papiros carbonizados usando tecnologia de raios-X, o chumbo em certas tintas würde "acender" contra o fundo queimado. Um computador poderia então desenrolar virtualmente e ler o texto escondido sem nunca tocar no papiro frágil.
Testando a Teoria
Para provar que o conceito funcionava, Seiler fez algo que parece absolutamente louco. Ele conseguiu papiro egípcio verdadeiro e tinta de fuligem tradicional do Japão. Pagou para estudantes do ensino médio escreverem passagens de Star Wars, da Bíblia e até citações do programa de TV The Outer Limits.
Aí veio a parte da queima.
Ele enrolou o papiro, selou num recipiente e colocou no forno de alta temperatura até ficar completamente carbonizado — imitando exatamente o que aconteceu com aqueles papiros durante a erupção do Vesúvio quase dois milênios atrás.
Os resultados foram impressionantes. Mesmo quantidades mínimas de chumbo na tinta criaram um sinal 25 vezes mais forte do que o papiro queimado ao redor. A escrita praticamente saltava para fora dos exames.
Por Que Isso Importa Tanto
Deixa eu colocar isso em perspectiva pra você.
Quase tudo da antiguidade se perdeu. Guerras, incêndios, apodrecimento, simples negligência — tudo isso destruiu a grande maioria da literatura antiga. O que temos da Grécia e Roma antigas é apenas uma fração do que foi originalmente escrito. Muitos tratados filosóficos, obras científicas, poesias e histórias simplesmente desapareceram antes que alguém pudesse copiá-los.
Mas os papiros de Herculano podem conter textos que achávamos perdidos para sempre.
Segundo Leah Packard-Grams, estudante de pós-graduação em arqueologia em Berkeley que consultou o projeto, "As consequências são as maiores na história da literatura grega."
Sem pressão, né?
Um Caminho Prático
Aqui está o que torna essa abordagem particularmente empolgante: não é apenas teoricamente possível, é praticamente alcançável.
Os pesquisadores descobriram que um scanner de raios-X portátil relativamente barato consegue detectar tinta à base de chumbo em papiros queimados. Isso significa que curadores poderiam potencialmente examinar coleções inteiras, identificando quais papiros têm mais probabilidade de conter conteúdo legível antes de se comprometerem com escaneamentos completos demorados e caros.
Em outras palavras, é um sistema de triagem para literatura antiga.
A equipe agora está essencialmente fazendo um chamado para pesquisadores que trabalham com a coleção de Herculano para começar a testar sistematicamente para tintas à base de chumbo. Se mesmo uma pequena porcentagem daqueles 1.800 papiros contiver chumbo, poderíamos estar olhando para a recuperação potencial de obras que a humanidade não lê há dois mil anos.
O Que Poderíamos Encontrar?
Os papiros que já conseguimos ler — através de um desenrolamento físico meticuloso e frequentemente destrutivo — contêm principalmente obras de Filodemo, um filósofo epicureu que vivia em Herculano cerca de um século antes da erupção. Elas já se mostraram valiosas para estudiosos.
Mas ainda há centenas de papiros não lidos em coleções na Itália, França e Inglaterra. Alguns podem conter obras completamente desconhecidas. Diálogos perdidos de filósofos antigos. Tratados científicos. Poesias. Histórias. As vozes perdidas do mundo antigo.
E agora, graças a pesquisadores dispostos a literalmente brincar com fogo, talvez finalmente tenhamos um jeito de ouvi-los de novo.
Às vezes, a melhor forma de preservar o passado é entender como ele foi destruído. Nesse caso, ao imitar essa destruição em condições controladas, os cientistas podem justamente nos devolver palavras que nunca pensamos que leríamos.
Não sei vocês, mas eu acho isso absolutamente incrível.
Fonte: ScienceDaily