Por que ficamos hipnotizados assistindo alguém subir uma rocha sem corda?
Existe algo perturbador e fascinante ao mesmo tempo. Você abre um vídeo, vê uma pessoa escalando uma parede vertical de pedras com nada além das próprias mãos e pés. Sem cordas. Sem equipamentos de segurança. Sem rede de proteção.
E não consegue desviar o olhar.
Esse é o paradoxo do free solo: quanto mais perigoso, mais assistimos. Mas o que nos atrai de verdade nessa prática radical?
O que leva alguém a fazer isso?
A maioria das pessoas nunca entenderá completamente. Nem mesmo eu.
Mas há algo que percebo observando esses atletas: não é apenas coragem ou burrice, como muitos querem reduzi-lo. É uma busca intensa por presença total. Quando você está a 300 metros do chão e a única coisa entre você e a morte é a sua concentração, não existe espaço para pensamentos distraídos.
Escutei uma entrevista uma vez. Um escalador dizia que nunca se sentiu tão vivo quanto durante suas ascentas em solo. A sensação de foco absoluto, onde cada movimento é uma decisão, onde não existe a possibilidade de erro. Para quem vive isso,普通的 momentos da vida parecem... vazios em comparação.
A mente no limite
Aqui entra a parte que mais me fascina do ponto de vista científico.
O cérebro humano não foi projetado para aceitar risco gratuito. Temos sistemas neurologicos inteiros dedicados a nos manter vivos, a nos avisar quando algo é perigoso. Então como essas pessoas consegue sobrepor isso?
Pesquisadores estudaram escaladores em estado de flow extremo. Descobriram que algo interessante acontece: a amígdala, region cerebral do medo, praticamente desliga. Não desaparece, mas se torna secundária frente ao objetivo.
É quase como se a mente encontrasse um interruptor. Em situações normais, esse interruptor ficaria desligado. No free solo, algo permite que ele seja acionado conscientemente.
Mas isso tem limites. Alex Honnold, o mais famoso free soloist do mundo, já disse em entrevistas que aprendeu a respeitar seus dias ruins. Dias onde o medo não diminui, onde a mente não encontra o flow. Nesses dias, ele não sobe.
Isso é importante. Não é impetuosidade. É autoconhecimento profundo.
O risco versus a atração
Vamos ser honestos: free solo mata pessoas.
Em 2017, Derek Debru, um escalador conhecido, morreu durante uma ascenta solo na região de Rocky Mountain. Seus seguidores ficaram chocados. Outros tantos sofrem acidentes fatais regularmente.
A taxa de mortalidade é real. Não é exagero ou medo exagerado.
Mas a atração permanece.
Penso que existe algo humano nisso. Vivemos em um mundo onde a maioria dos riscos foi removida. Ascensores seguros, carros com airbags, trabalho remoto com café da manhã incluso. Raramente tomamos decisões que realmente importam.
O free solo força uma decisão. Cada movimento é irreversível. Não existe ctrl+z quando você escorrega.
Para alguns, isso não é horror. É libertação.
O que penso sobre isso
Vou ser claro: não faria isso. Não tenho a combinação necessária de habilidade física, controle mental e, talvez, certa dose de loucura.
Mas respeito profundamente.
Mais do que respeito, reconheço que essas pessoas nos ensinam algo. Elas mostram que existe um nível de engajamento com a vida que a maioria de nós nunca atinge. Não estou pedindo para todos subirmos paredes sem corda. Mas talvez possamos aprender a buscar momentos onde estamos completamente presentes, onde realmente importamos as decisões que tomamos.
Talvez o free solo seja um espelho. Ele mostra o que somos capazes quando não temos escolha a não ser ser presentes.
Histórias que ficam
Conheço a história de John Bachar. Ele foi pioneiro do boulder e do free solo nos anos 70 e 80. Diferente de Honnold, que se tornou famoso pela mídia, Bachar era quase um mito. Subia sem equipamento, com um estilo fluido e quase casual que impressionava quem via.
Ele morreu em 2009, aos 52 anos, durante uma escalada routine. Não foi free solo. Foi uma queda de boulder, praticando algo que fazia há décadas.
Sua história me faz pensar. Ele não morreu fazendo algo imprudente. Morreu fazendo o que amava, da maneira que sempre fez. Há algo de dignidade nisso?
E tem a história menos conhecida de John Gill, contemporâneo de Bachar. Gill introduziu o conceito de "ded lock", uma técnica de agarro específica para escalada em rocha. Ele também sofria de transtorno bipolar. A escalada era, para ele, não apenas esporte, mas terapia. Quando escalava, os pensamentos caóticos se organizavam. Encontrava paz onde outros achariam terror.
Não temos muitos registros de seus free solos. Talvez porque ele não buscasse a glória, apenas o efecto.
Uma reflexão final
Assistimos free solo porque, em algum nível, queremos sentir o que eles sentem. A atenção plena. A certeza de que aquele momento importa.
Não precisamos subir rochas sem corda para encontrar isso. Mas podemos aprender com eles a buscar momentos onde estamos totalmente presentes, onde nossas escolhas carregam peso.
Talvez a verdadeira lição não seja sobre escalada. Seja sobre estar vivo.
E quando você vir o próximo vídeo de alguém escalando uma parede impossível, preste atenção no que sente. Não é apenas admiração. É um lembrete de que existem pessoas vivendo em intensidade máxima.
E talvez, lá no fundo, desejamos um pouco dessa intensidade para nós mesmos.